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Os Novíssimos· Defesa da fé

O purgatório é uma invenção da Igreja?

Se Cristo pagou tudo na cruz, por que falar de purificação depois da morte? O que a Igreja ensina, de onde isso vem e o que não é verdade.

6 min de leituraNível Intermediário✓ Citações conferidas

Parece que…
Cristo pagou por todos os nossos pecados de uma vez (Hb 10,14), e já não há condenação para os que estão nele (Rm 8,1). Um lugar de purificação depois da morte negaria a suficiência da cruz.
Em sentido contrário
São Paulo fala de alguém que será salvo, “mas como que através do fogo” (1Cor 3,15), e os judeus piedosos já rezavam pelos mortos para que fossem livres das suas faltas (2Mc 12,46).
Respondo
O purgatório não acrescenta nada à obra de Cristo: é a própria graça de Cristo terminando de curar quem morreu na amizade de Deus, mas ainda não inteiramente purificado, para que possa entrar no céu.

Para muitos cristãos evangélicos, o purgatório é o exemplo perfeito de algo que a Igreja Católica acrescentou à Bíblia: uma doutrina medieval, que teria servido para vender indulgências e que, no fundo, duvida de que a cruz de Cristo basta. Até muitos católicos não sabem bem o que responder, e alguns imaginam o purgatório como um “inferno temporário”.

Vale a pena olhar com calma: o que a Igreja realmente ensina, de onde isso vem e o que, na objeção, tem uma parte de verdade.

A objeção

Na sua melhor forma, ela diz:

  1. Cristo já pagou tudo. Com uma única oferta, ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados (Hb 10,14). Na cruz, disse: “Está consumado” (Jo 19,30). Não há mais nada a pagar.
  2. Não há condenação para quem está em Cristo (Rm 8,1). Um castigo depois da morte contradiz isso.
  3. O bom ladrão foi direto para o paraíso. Jesus lhe disse: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43), sem passar por purificação nenhuma.
  4. A Bíblia não fala de purgatório. O texto principal, sobre a oração pelos mortos, está em 2 Macabeus, um livro que os protestantes não reconhecem como Escritura.
  5. A doutrina surgiu na Idade Média e serviu para arrecadar dinheiro, com a venda de indulgências que provocou a Reforma.

O que a Igreja ensina

O ensinamento é mais sóbrio do que muitos imaginam:

Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu.

— CIC 1030

Três coisas ficam claras. O purgatório é só para quem já está salvo: “a purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados” (CIC 1031). Não é uma segunda chance para quem rejeitou Deus. E a Igreja pode ajudar essas almas com orações, sobretudo a Missa, esmolas e obras de penitência (CIC 1032).

A Igreja definiu a doutrina sobretudo nos concílios de Florença e de Trento (CIC 1031), mas não definiu o lugar, a duração nem a natureza do “fogo”. Trento, aliás, mandou que os pregadores evitassem as questões curiosas e tudo o que cheirasse a lucro (Concílio de Trento, sessão XXV, Decreto sobre o purgatório; DH 1820).

A resposta

Nada entra no céu sem estar purificado

A Escritura é clara: sem a santidade, ninguém verá o Senhor (Hb 12,14), e na Jerusalém celeste não entrará nada de impuro (Ap 21,27). Ao mesmo tempo, a experiência mostra que muitos cristãos morrem em amizade com Deus, mas ainda com apegos, egoísmos e feridas que não foram curados.

O Catecismo explica que todo pecado, mesmo leve, deixa um “apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte” (CIC 1472). O perdão apaga a culpa, mas a cura do coração pode levar tempo. O rei Davi foi perdoado do seu pecado, e mesmo assim teve de carregar as suas consequências (2Sm 12,13-14).

O fogo que salva

O texto mais importante do Novo Testamento é de São Paulo. Ele fala da obra de cada um, que será provada pelo fogo no dia do Senhor. Se a obra for queimada, a pessoa sofrerá perda, mas “será salva, mas como que através do fogo” (1Cor 3,13-15). Não é o inferno, porque a pessoa é salva. Não é o céu sem mais, porque há perda e fogo. É exatamente o que a Igreja chama de purificação.

Jesus também fala de um pecado que não será perdoado “nem neste século nem no futuro” (Mt 12,32), o que supõe que algumas faltas possam ser perdoadas no futuro. São Gregório Magno, citado pelo Catecismo, tirou daí essa conclusão (CIC 1031).

A oração pelos mortos

No segundo livro dos Macabeus, Judas Macabeu manda oferecer um sacrifício pelos soldados mortos, “para que os mortos fossem livres das suas faltas” (CIC 1032; 2Mc 12,43-46). Mesmo quem não aceita o livro como Escritura precisa admitir que ele mostra uma prática judaica anterior a Cristo. E rezar pelos mortos só faz sentido se eles puderem ser ajudados: não se reza por quem está no céu, que não precisa, nem por quem está condenado, que não pode ser ajudado.

Os primeiros cristãos herdaram essa prática. São Paulo pede a misericórdia do Senhor para Onesíforo “naquele dia”, falando da sua família como de quem ficou sozinha, o que leva muitos a pensar que ele já havia morrido (2Tm 1,16-18).

O testemunho da Igreja antiga

  • Tertuliano, por volta de 211, descreve como algo já estabelecido o costume de fazer oferendas pelos mortos no aniversário da morte (Tertuliano, A coroa do soldado, 3).
  • São Cirilo de Jerusalém, por volta de 350, explica que na Missa se reza pelos que adormeceram antes de nós, crendo que isso lhes é de grande proveito (São Cirilo de Jerusalém, Catequeses mistagógicas, V,9).
  • Santa Mônica, ao morrer, em 387, pede ao filho uma só coisa: que se lembre dela no altar do Senhor, onde quer que esteja (Santo Agostinho, Confissões, IX,11).

Respondendo às objeções

1. “Cristo já pagou tudo.” Sim, e o purgatório não diz o contrário. Ninguém se purifica por força própria: é a graça conquistada por Cristo que termina a sua obra em nós. Bento XVI sugere que o próprio encontro com Cristo, depois da morte, é esse fogo que queima e salva ao mesmo tempo (Bento XVI, Spe salvi, 47). A cruz basta; o que falta é a nossa transformação completa por ela.

2. “Não há condenação.” O purgatório não é condenação. Quem está lá já está salvo, e o Catecismo insiste que ele é “absolutamente distinto” do castigo dos condenados (CIC 1031). É mais parecido com uma cirurgia do que com uma pena.

3. “O bom ladrão foi direto para o paraíso.” Ninguém diz que todos passam pelo purgatório. Uma conversão nascida de uma caridade ardente pode purificar tudo, de modo que “nenhuma pena subsista” (CIC 1472). O ladrão que reconhece Jesus crucificado e lhe confia a sua vida é um exemplo disso.

4. “A Bíblia não fala de purgatório.” A palavra não está na Bíblia, como também não estão “Trindade” e “encarnação”. Mas a realidade está: a purificação “através do fogo” (1Cor 3,15) e a oração pelos mortos (2Mc 12,46). Quanto a 2 Macabeus, ele fazia parte da Bíblia grega usada pelos primeiros cristãos e foi reconhecido no cânon pela Igreja já nos concílios do fim do século IV. Quem o retirou foram os reformadores, no século XVI, em parte justamente por causa dessa passagem.

5. “Foi inventado na Idade Média para gerar dinheiro.” A oração pelos mortos é do século I e a doutrina é dos primeiros séculos, como mostram Tertuliano, Cirilo e Agostinho. O que a Idade Média trouxe foi a palavra “purgatório” e, sim, abusos reais na pregação das indulgências, que a própria Igreja condenou em Trento (DH 1820). Um abuso não torna falsa a doutrina abusada.

Em resumo

  • O purgatório é a purificação final dos que já estão salvos, não uma segunda chance nem um inferno temporário (CIC 1030-1031).
  • Ele não acrescenta nada à cruz: é a graça de Cristo completando a nossa santificação.
  • A Escritura fala de quem é salvo “como que através do fogo” (1Cor 3,15) e da oração pelos mortos (2Mc 12,46).
  • Os cristãos rezam pelos mortos desde os primeiros séculos, sobretudo na Missa.
  • Rezar pelos falecidos é um ato de caridade que a Igreja nos convida a viver (CIC 1032).

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1030-1032 (a purificação final ou purgatório)
  2. Carta encíclica Spe salvi, 45-48 (2007) — Bento XVI
  3. A coroa do soldado, 3 — Tertuliano
  4. Catequeses mistagógicas, V,9 — São Cirilo de Jerusalém
  5. Confissões, IX,11 — Santo Agostinho
  6. Concílio de Trento, sessão XXV, Decreto sobre o purgatório (DH 1820)