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Os Sacramentos· Trilha IV de IV

A presença real de Cristo na Eucaristia

O que a Igreja quer dizer quando afirma que Jesus está verdadeiramente presente na Eucaristia, e por que crê nisso desde o início.

8 min de leituraNível Intermediário✓ Citações conferidas

Na Missa, depois das palavras da consagração, o padre eleva a hóstia e o povo se ajoelha. Para quem vê de fora, é um gesto estranho diante de um pedaço de pão. Para o católico, é o gesto mais natural do mundo: ali não há mais pão, mas o próprio Cristo.

Essa é a fé na presença real. Não se trata de um detalhe de devoção, mas do centro da vida da Igreja, que o Concílio Vaticano II chamou de “fonte e ápice de toda a vida cristã” (Lumen Gentium, 11). Entender o que ela afirma, e o que não afirma, ajuda a viver melhor cada Missa.

O que a Igreja ensina

Cristo está presente na Igreja de muitos modos: na sua Palavra, na oração da comunidade, nos pobres, nos sacramentos e na pessoa do ministro. Mas está presente “sobretudo sob as espécies eucarísticas” (CIC 1373). O Catecismo explica por que essa presença é única:

No santíssimo sacramento da Eucaristia estão “contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo”.

— CIC 1374

Cada palavra exclui um engano. Verdadeiramente: não só em figura. Realmente: não só na fé ou na lembrança de quem comunga. Substancialmente: não só pela sua força ou pela sua ação, mas com o seu próprio ser. E Cristo está ali inteiro, com o corpo, o sangue, a alma e a divindade.

Isso não diminui as outras formas de presença. Esta se chama “real”, diz o Catecismo, “não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem ‘reais’, mas por excelência, porque é substancial” (CIC 1374).

A presença começa no momento da consagração e dura enquanto as espécies existirem. Cristo está todo em cada uma das espécies e todo em cada parte delas, de modo que partir a hóstia não divide Cristo (CIC 1377). Por isso a Igreja adora a Eucaristia, não só durante a Missa, mas também fora dela, no sacrário e na adoração (CIC 1378).

O que é a transubstanciação

Como o pão se torna o corpo de Cristo? A Igreja responde com uma palavra que assusta à primeira vista, mas diz algo simples: transubstanciação, isto é, mudança da substância.

Toda coisa tem aquilo que ela é (a substância) e aquilo que ela aparenta aos sentidos: cor, gosto, peso, forma (os acidentes, ou as espécies). Normalmente, as duas coisas andam juntas: se algo parece pão, é pão. Na Eucaristia, Deus muda o que o pão é, e conserva o que ele aparenta. O Concílio de Trento resumiu assim:

Pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação.

— CIC 1376

Quem realiza essa mudança não é o padre, por um poder próprio, mas Cristo, pela força da sua Palavra e do Espírito Santo (CIC 1375). O padre empresta a voz; a palavra que transforma é a de Cristo: “Isto é o meu corpo”.

A palavra “transubstanciação” é da Idade Média, mas a fé que ela explica é muito anterior. Os Padres já falavam de uma conversão do pão e do vinho (CIC 1375). A Igreja escolheu a palavra para proteger essa fé, não para criá-la.

Na Sagrada Escritura

O discurso do Pão da Vida

Depois de multiplicar os pães, Jesus se apresenta como o pão vivo descido do céu e diz que o pão que ele dará é a sua carne, para a vida do mundo (Jo 6,51). Os ouvintes entendem literalmente e se escandalizam: como ele pode nos dar a sua carne a comer? (Jo 6,52).

Se Jesus estivesse falando só por imagem, aquele era o momento de explicar. Ele faz o contrário: insiste, com mais força, que quem não come a sua carne e não bebe o seu sangue não terá a vida, e que a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue, verdadeiramente bebida (Jo 6,53-55). Muitos discípulos o abandonam por isso, e Jesus os deixa ir. Só pergunta aos Doze se também eles querem ir embora, e Pedro responde que só ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,60.66-68). O Catecismo nota que esse primeiro anúncio da Eucaristia “dividiu os discípulos” (CIC 1336), como divide até hoje.

A Última Ceia

Na noite em que foi entregue, Jesus toma o pão e diz: “Isto é o meu corpo”; toma o cálice e diz que é o seu sangue, o sangue da Aliança, derramado por muitos (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20). Ele não diz “isto representa” nem “isto lembra”. E acrescenta: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Os Apóstolos receberam não só o que fazer, mas a ordem de continuar fazendo.

São Paulo

Pouco mais de vinte anos depois, São Paulo escreve aos coríntios que o cálice que abençoamos é comunhão com o sangue de Cristo, e o pão que partimos é comunhão com o seu corpo (1Cor 10,16). E adverte: quem come o pão ou bebe o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor, e quem não discerne o corpo come e bebe a própria condenação (1Cor 11,27-29). Ninguém se torna réu do corpo de alguém por ofender um símbolo.

Na Tradição

Os primeiros cristãos leram esses textos literalmente, e o testemunho começa logo depois dos Apóstolos.

  • Santo Inácio de Antioquia, discípulo dos Apóstolos, escreve por volta de 110 sobre alguns hereges que se afastam da Eucaristia porque não confessam que a Eucaristia é a carne do nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu pelos nossos pecados (Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, 7,1).
  • São Justino, por volta de 155, explica aos pagãos o que os cristãos fazem no domingo: não recebem aquele alimento como pão comum nem como bebida comum, mas como a carne e o sangue de Jesus encarnado (São Justino, I Apologia, 66).
  • São Cirilo de Jerusalém, por volta de 350, ensina aos recém-batizados: não julguem pelo gosto, mas tenham certeza, pela fé, de que receberam o corpo e o sangue de Cristo (São Cirilo de Jerusalém, Catequeses mistagógicas, IV,6).
  • São João Crisóstomo e Santo Ambrósio, no século IV, ensinam que não é o homem que faz das ofertas o corpo e o sangue de Cristo, mas o próprio Cristo, pela força da sua palavra (CIC 1375).

Quando, no século XI, Berengário de Tours passou a ensinar que a presença era só simbólica, a novidade foi rejeitada justamente por contradizer o que sempre se crera. E quando a Reforma Protestante voltou a questionar a presença real, o Concílio de Trento reafirmou a fé de sempre, lembrando que “sempre na Igreja se teve esta convicção” (CIC 1376).

Dúvidas comuns

Jesus não falava muitas vezes por imagens?

Sim: “Eu sou a porta”, “Eu sou a videira”. Mas nesses casos ninguém se escandalizou nem foi embora, porque todos entenderam a imagem. Em João 6, os ouvintes entendem literalmente, e Jesus confirma em vez de corrigir. Alguns lembram que ele diz que “o espírito é que dá a vida, a carne de nada serve” (Jo 6,63). Mas ali Jesus não diz “a minha carne de nada serve”, o que contradiria tudo o que acabara de dizer. Ele contrapõe o modo de entender carnal, sem fé, ao modo espiritual, que acolhe a sua palavra.

Por que a hóstia continua com gosto de pão?

Porque a mudança atinge a substância, não as aparências. Os sentidos não se enganam: percebem corretamente cor, gosto e textura de pão. O que eles não alcançam é o que está por baixo dessas aparências. Por isso o Catecismo, citando São Tomás de Aquino, diz que essa presença não se apreende pelos sentidos, “mas só pela fé, que se apoia na autoridade de Deus” (CIC 1381).

Comer o corpo de Cristo não seria canibalismo?

Os pagãos do século II faziam exatamente essa acusação, e ela só faz sentido porque os cristãos de fato diziam comer o corpo de Cristo. Mas a comunhão não é canibalismo: não se recebe Cristo em pedaços, morto, sob a aparência de carne. Recebe-se o Cristo vivo e ressuscitado, inteiro, sob a aparência de pão, e não somos nós que o assimilamos, mas ele que nos assimila a si.

A transubstanciação não depende da filosofia de Aristóteles?

A palavra usa um vocabulário filosófico, mas a fé não depende de nenhuma escola. A Igreja não ensina uma teoria sobre a matéria; ensina que, depois da consagração, o que está no altar já não é pão, embora pareça pão. Isso já era crido muito antes de Aristóteles ser lido no Ocidente, como mostram Inácio, Justino e Cirilo.

Em resumo

  • Na Eucaristia, Cristo está presente verdadeira, real e substancialmente: corpo, sangue, alma e divindade (CIC 1374).
  • A transubstanciação é a mudança da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo; as aparências permanecem (CIC 1376).
  • Jesus insistiu nessa verdade em João 6, mesmo quando muitos o abandonaram, e a instituiu na Última Ceia.
  • Os cristãos creem nisso desde o século I, como testemunham Santo Inácio, São Justino e São Cirilo.
  • Por isso a Igreja adora a Eucaristia, na Missa e fora dela (CIC 1378).

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1373-1381 (a presença de Cristo pelo poder da sua Palavra e do Espírito Santo)
  2. Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia (2003) — São João Paulo II
  3. Carta encíclica Mysterium Fidei (1965) — São Paulo VI
  4. Carta aos Esmirnenses, 7,1 — Santo Inácio de Antioquia
  5. I Apologia, 66 — São Justino
  6. Catequeses mistagógicas, IV,6 — São Cirilo de Jerusalém
  7. Concílio de Trento, sessão XIII, Decreto sobre a Eucaristia (DH 1635-1661)