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Os Sacramentos· Defesa da fé· Trilha III de IV

Por que confessar os pecados a um padre?

Se só Deus perdoa pecados, por que contá-los a um homem? O que Jesus deu aos Apóstolos e como os primeiros cristãos viveram isso.

6 min de leituraNível Iniciante✓ Citações conferidas

Parece que…
Só Deus pode perdoar pecados (Mc 2,7), e há um só mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5). Portanto, basta confessar os pecados diretamente a Deus.
Em sentido contrário
O Ressuscitado sopra sobre os Apóstolos e lhes diz que os pecados que perdoarem serão perdoados, e os que retiverem serão retidos (Jo 20,22-23).
Respondo
É verdade que só Deus perdoa. Mas ele quis perdoar por meio dos Apóstolos e de seus sucessores, e eles só podem perdoar ou reter o que conhecem. Por isso o pecador confessa a Cristo, presente no ministério do sacerdote.

“Eu me confesso direto com Deus.” Muitos católicos já disseram ou ouviram essa frase, e muitos cristãos evangélicos a consideram simplesmente óbvia. Por que contar os próprios pecados a outro homem, também pecador, se Deus vê tudo e pode perdoar tudo?

A pergunta é boa, e a resposta não está numa regra da Igreja, mas numa escolha do próprio Cristo.

A objeção

Na sua melhor forma, ela diz:

  1. Só Deus perdoa pecados. Os próprios escribas, diante de Jesus, perguntaram quem pode perdoar pecados senão Deus (Mc 2,7).
  2. Há um só mediador. Entre Deus e os homens, o único mediador é Cristo (1Tm 2,5). Um padre seria um intermediário a mais.
  3. A Bíblia manda confessar a Deus. Se confessamos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar (1Jo 1,9). Não se fala de padre.
  4. A confissão a um padre é invenção medieval. Ela teria sido imposta pelo IV Concílio de Latrão, em 1215.
  5. O padre também é pecador. Que autoridade ele teria para perdoar os outros?

O que a Igreja ensina

A Igreja concorda com o ponto de partida: “Só Deus perdoa os pecados” (CIC 1441). Mas continua:

Jesus, porque é Filho de Deus, diz de Si próprio: “O Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados” (Mc 2,10) e exerce este poder divino: “Os teus pecados são-te perdoados!” (Mc 2,5). Mais ainda: em virtude da sua autoridade divina, concede este poder aos homens para que o exerçam em seu nome.

— CIC 1441

Esse poder foi confiado aos Apóstolos e, por meio deles, aos bispos e presbíteros (CIC 1461). Por isso, “a confissão ao sacerdote constitui uma parte essencial do sacramento da Penitência” (CIC 1456). E o que se diz ali fica protegido por um segredo absoluto, o sigilo sacramental, que “não admite exceções” (CIC 1467).

A resposta

Cristo deu aos Apóstolos o poder de perdoar

Na noite da Páscoa, o Ressuscitado aparece aos discípulos, sopra sobre eles, dá-lhes o Espírito Santo e diz que os pecados que eles perdoarem serão perdoados, e os que retiverem serão retidos (Jo 20,21-23). É o único momento dos Evangelhos em que Jesus sopra sobre alguém, um gesto que lembra Deus soprando a vida em Adão. Ali nasce algo novo.

Esse poder não ficou só com Pedro. Jesus dá a ele as chaves do Reino e o poder de ligar e desligar (Mt 16,19), e depois dá o mesmo poder de ligar e desligar aos discípulos (Mt 18,18). São Paulo chama isso de “ministério da reconciliação”: Deus nos reconciliou consigo por Cristo e confiou aos Apóstolos esse ministério (2Cor 5,18-20).

Os próprios contemporâneos de Jesus perceberam a novidade. Depois da cura do paralítico, a multidão glorifica a Deus, que deu tal poder aos homens (Mt 9,8). Aos homens, no plural.

Perdoar ou reter exige conhecer

Jesus não deu aos Apóstolos apenas o poder de perdoar, mas também o de reter. Um juiz não pode absolver ou condenar sem conhecer a causa, e um médico não pode tratar a ferida que não vê. Se os Apóstolos precisam decidir entre perdoar e reter, alguém precisa lhes dizer o que há para perdoar.

É o que a Igreja ensina, retomando uma imagem de São Jerônimo: “se o doente tem vergonha de descobrir a sua ferida ao médico, a medicina não pode curar o que ignora” (CIC 1456).

Os primeiros cristãos confessavam os pecados

A confissão não começou em 1215. A Didaqué, um catecismo escrito por volta do ano 100, manda: “Na igreja, confessarás as tuas faltas” (Didaqué, 4,14), e pede que os cristãos confessem os pecados antes da Eucaristia de domingo (Didaqué, 14,1). São Tiago já orientava a confessar os pecados uns aos outros e a orar uns pelos outros (Tg 5,16).

Por volta de 251, São Cipriano elogia os cristãos que, mesmo sem terem cometido o pecado grave da apostasia, mas só por terem pensado nisso, confessam com dor e simplicidade essa falta aos sacerdotes de Deus (São Cipriano, Sobre os que caíram, 28). No século IV, Santo Ambrósio é taxativo: o poder de perdoar os pecados foi confiado só aos sacerdotes (Santo Ambrósio, Sobre a Penitência, I,2).

Respondendo às objeções

1. “Só Deus perdoa.” Exatamente. Quando o padre diz “eu te absolvo”, não é ele quem perdoa por conta própria: é Cristo que perdoa por meio dele, assim como é Cristo quem batiza por meio de quem batiza. Cristo quis que a Igreja fosse sinal e instrumento do seu perdão e confiou o poder de absolver ao ministério apostólico (CIC 1442). O perdão continua sendo divino; o que Cristo escolheu foi o caminho humano por onde ele chega.

2. “Há um só mediador.” O padre não é um segundo mediador, ao lado de Cristo. Ele é um instrumento do único Mediador. Pela mesma lógica, um pastor que prega o Evangelho também seria um “intermediário”, e São Paulo não deveria ter dito que Deus exorta os homens através dos Apóstolos (2Cor 5,20).

3. “A Bíblia manda confessar a Deus.” E a confissão sacramental é confissão a Deus. 1Jo 1,9 não diz como confessar, e outros textos mostram a confissão feita diante de outros (Tg 5,16; At 19,18). Além disso, a Igreja nunca ensinou que não se deve rezar pedindo perdão diretamente a Deus: o arrependimento sincero deve acompanhar o cristão todos os dias. A confissão ao padre é o caminho que Cristo deixou, sobretudo para os pecados graves.

4. “É invenção medieval.” A forma da penitência mudou ao longo dos séculos, e é honesto reconhecer isso. Nos primeiros séculos, os pecados mais graves e públicos levavam a uma penitência pública, longa, concedida muitas vezes uma só vez na vida. A partir do século VI, sobretudo com os monges irlandeses, difundiu-se a confissão privada e repetida, como a conhecemos. O IV Concílio de Latrão, em 1215, não inventou a confissão: apenas mandou que todo fiel se confessasse ao menos uma vez por ano (IV Concílio de Latrão, cân. 21; DH 812). Só se obriga a fazer ao menos uma vez algo que já existe.

5. “O padre também é pecador.” Sim, e muitas vezes ele mesmo se confessa com outro padre. Mas o sacramento não depende da santidade de quem o celebra, e sim do poder de Cristo (CIC 1128). Os Apóstolos que receberam o poder de perdoar, na noite da Páscoa, eram os mesmos que tinham fugido na Sexta-feira Santa.

Em resumo

  • Só Deus perdoa os pecados, e por isso mesmo Cristo, que é Deus, pôde dar esse poder a homens para que o exercessem em seu nome (CIC 1441).
  • Jesus deu aos Apóstolos o poder de perdoar e de reter os pecados (Jo 20,22-23), o que supõe conhecê-los.
  • Os cristãos confessam os pecados desde o século I; o que mudou com o tempo foi a forma da penitência, não a sua essência.
  • Quem perdoa é Cristo, por meio do sacerdote, que está obrigado a um sigilo absoluto (CIC 1467).
  • A confissão não é um peso, mas um encontro com a misericórdia: devolve a graça e a paz da consciência (CIC 1468).

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1422-1498 (o sacramento da Penitência e da Reconciliação)
  2. Exortação apostólica Reconciliatio et Paenitentia (1984) — São João Paulo II
  3. Didaqué, 4,14 e 14,1
  4. Sobre os que caíram, 28 — São Cipriano de Cartago
  5. Sobre a Penitência, I,2 — Santo Ambrósio
  6. IV Concílio de Latrão (1215), cân. 21 (DH 812)