Os Sacramentos· Defesa da fé· Trilha II de IV
O batismo de crianças é bíblico?
Se o Batismo pede fé, por que batizar quem ainda não pode crer? O que a Escritura, os primeiros cristãos e a Igreja respondem.
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- Parece que…
- O Batismo é a resposta de quem crê (Mc 16,16). Um bebê não pode crer nem se arrepender; portanto, só deveria ser batizado quem já tem fé pessoal.
- Em sentido contrário
- “A prática de batizar as crianças é tradição imemorial da Igreja” (CIC 1252).
- Respondo
- O Batismo é antes de tudo um dom de Deus, não um mérito humano. As crianças são batizadas na fé da Igreja, como no Antigo Testamento entravam na Aliança pela circuncisão, e a fé que recebem deve crescer com elas.
Na fila do batismo de uma paróquia, quase todos estão no colo dos pais. Para muitos cristãos evangélicos, essa cena é um erro: o Batismo seria o testemunho público de quem já decidiu seguir a Cristo, e um bebê não decide nada. Por isso, nessas comunidades, quem foi batizado criança costuma ser batizado de novo depois de adulto.
A objeção é séria e merece uma resposta séria. Afinal, a Igreja Católica batiza crianças há quase dois mil anos. Isso tem base na Escritura, ou é um costume que se impôs com o tempo?
A objeção
Na sua melhor forma, o argumento tem quatro passos:
- O Batismo vem depois da fé. “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16): primeiro crer, depois ser batizado. No Pentecostes, Pedro também pede primeiro a conversão e depois o Batismo (At 2,38).
- Uma criança não pode crer nem se converter. Logo, não cumpre a condição.
- O Novo Testamento não mostra nenhum bebê sendo batizado. Todos os batismos narrados são de pessoas que ouviram a pregação e creram.
- A prática surgiu depois. O próprio Tertuliano, por volta do ano 200, aconselhava adiar o batismo das crianças. Sinal, diz a objeção, de que o costume ainda não era unânime.
O que a Igreja ensina
A Igreja reconhece que o Batismo é “o sacramento da fé” (CIC 1253). Mas ensina também que essa fé não nasce sozinha nem precisa estar madura: “a fé que se requer para o Batismo não é uma fé perfeita e amadurecida, mas um princípio chamado a desenvolver-se” (CIC 1253).
Por isso, a Igreja batiza as crianças:
Nascidas com uma natureza humana decaída e manchada pelo pecado original, as crianças também têm necessidade do novo nascimento no Batismo para serem libertas do poder das trevas e transferidas para o domínio da liberdade dos filhos de Deus, a que todos os homens são chamados. A pura gratuidade da graça da salvação é particularmente manifesta no Batismo das crianças.
— CIC 1250
E deixa claro em que fé elas são batizadas: “as crianças são batizadas na fé da Igreja” (CIC 1282). A Igreja defendeu essa prática contra quem a negava já no Concílio de Cartago, em 418 (DH 223), e o Concílio de Trento condenou a ideia de que os batizados quando crianças devam ser batizados de novo ao crescer (Concílio de Trento, sessão VII, cânones sobre o Batismo, cân. 13; DH 1626).
A resposta
O Batismo é dom antes de ser resposta
O ponto de partida da objeção é que o Batismo seria, antes de tudo, um ato nosso: uma declaração pública de fé. Para a fé católica, ele é antes de tudo um ato de Deus. É Cristo quem batiza, quem perdoa, quem nos faz filhos (CIC 1127). A fé é necessária, mas como acolhida de um dom, não como preço pago por ele.
É por isso que o Catecismo diz que “a pura gratuidade da graça da salvação é particularmente manifesta no Batismo das crianças” (CIC 1250). Um bebê não pode merecer nada, e é exatamente assim que todos recebemos a graça.
As “casas” batizadas
O Novo Testamento narra várias vezes o batismo de famílias inteiras: Lídia “e sua casa” (At 16,15), o carcereiro de Filipos “e todos os seus” (At 16,33), a casa de Estéfanas (1Cor 1,16). Na cultura da época, a “casa” incluía o chefe da família, a esposa, os filhos e os servos. O texto não diz que havia crianças, mas também não as exclui, e seria estranho que em nenhuma dessas famílias houvesse filhos pequenos.
O Catecismo é prudente aqui: a prática é “explicitamente atestada desde o século II”, mas “é no entanto bem possível que, desde o princípio da pregação apostólica, quando ‘casas’ inteiras receberam o Batismo se tenham batizado também as crianças” (CIC 1252).
Da circuncisão ao Batismo
No Antigo Testamento, os meninos entravam na Aliança pela circuncisão, no oitavo dia de vida (Gn 17,12), muito antes de poderem crer. A fé viria depois, na família e no povo de Deus. São Paulo apresenta o Batismo como a “circuncisão de Cristo”, que nos sepulta e ressuscita com ele (Cl 2,11-12).
Se a Antiga Aliança acolhia as crianças, seria estranho que a Nova, mais ampla e generosa, as deixasse de fora. No Pentecostes, logo depois de chamar à conversão, Pedro acrescenta que a promessa é para os ouvintes e para os seus filhos (At 2,39).
O testemunho dos primeiros séculos
Os escritos cristãos mais antigos confirmam essa prática:
- São Justino, por volta de 155, fala de homens e mulheres de sessenta e setenta anos que eram discípulos de Cristo desde a infância (São Justino, I Apologia, 15). Feitas as contas, foram batizados ainda crianças, no fim do século I, quando alguns Apóstolos ainda viviam.
- Santo Irineu, por volta de 180, ensina que Cristo veio salvar todos os que por ele renascem para Deus, e cita expressamente “infantes e crianças” (Santo Irineu, Contra as heresias, II,22,4). Na linguagem dos Padres, “renascer para Deus” é o Batismo.
- A Tradição Apostólica, do início do século III, manda batizar primeiro as crianças e diz que, se não puderem responder por si, os pais ou alguém da família respondam por elas (Tradição Apostólica, 21).
- Orígenes, na mesma época, afirma que a Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de batizar também as crianças (Orígenes, Comentário à Carta aos Romanos, V,9).
- São Cipriano, por volta de 253, responde ao bispo Fido, que achava que se devia esperar o oitavo dia, como na circuncisão. Um concílio de bispos africanos foi unânime em responder que não se deve negar a graça de Deus a nenhum recém-nascido (São Cipriano, Carta 64).
Respondendo às objeções
1. “Quem crer e for batizado será salvo.” A frase se dirige a quem ouve a pregação do Evangelho, ou seja, a adultos. Se fosse aplicada às crianças, a segunda metade do versículo diria que elas estão condenadas por não crer (Mc 16,16), o que nenhum cristão admite. O mesmo vale para Pedro em At 2,38: ele fala a adultos que acabaram de ouvir a pregação e, no versículo seguinte, inclui os filhos na promessa.
2. “Um bebê não pode crer.” Não pode crer sozinho, e ninguém pode. A fé de cada cristão nasce e cresce dentro da fé da Igreja (CIC 1253). A criança é batizada nessa fé, e os pais e padrinhos se comprometem a educá-la nela. Por isso o Batismo das crianças pede, por natureza, uma catequese depois do Batismo (CIC 1231).
3. “Não há nenhum bebê batizado na Bíblia.” Também não há na Bíblia nenhum filho de cristãos que tenha esperado crescer para ser batizado. Os relatos de batismo do Novo Testamento mostram a primeira geração, que se convertia já adulta. Quando famílias inteiras são batizadas, nada indica que os pequenos tenham ficado de fora.
4. “Tertuliano pedia para adiar.” É verdade, e o testemunho dele prova o contrário do que a objeção quer: só faz sentido aconselhar o adiamento de algo que já se praticava. Tertuliano também aconselhava adiar o Batismo dos solteiros e dos viúvos, por medo de que pecassem depois (Tertuliano, Sobre o Batismo, 18), um conselho que a Igreja não seguiu. Poucas décadas depois, os bispos africanos reunidos com São Cipriano decidiram justamente o oposto.
5. “A fé deve ser uma decisão pessoal.” E é. O batizado quando criança precisará, ao crescer, assumir a fé como sua: é para isso que existem a catequese, a Confirmação e toda a vida cristã. Mas a decisão pessoal não cria a graça; ela acolhe uma graça já recebida. Os pais cristãos decidem pelos filhos em tantas coisas boas, como o alimento, a saúde e a educação. A Igreja os convida a não os privar da maior de todas (CIC 1250).
Em resumo
- O Batismo é sacramento da fé, mas a fé exigida “não é uma fé perfeita e amadurecida” (CIC 1253).
- As crianças são batizadas na fé da Igreja (CIC 1282) e precisam ser educadas nela.
- O Novo Testamento narra o batismo de casas inteiras e apresenta o Batismo como a nova circuncisão (Cl 2,11-12).
- Desde o século II, os cristãos testemunham o batismo de crianças como prática recebida dos Apóstolos.
- O Batismo das crianças mostra que a salvação é pura graça, não conquista humana.
Referências
- Catecismo da Igreja Católica, 1213-1284 (o sacramento do Batismo)
- Instrução Pastoralis actio sobre o Batismo das crianças (1980) — Congregação para a Doutrina da Fé
- I Apologia, 15 — São Justino
- Contra as heresias, II,22,4 — Santo Irineu de Lião
- Carta 64 (a Fido, sobre o batismo das crianças) — São Cipriano de Cartago
- Sobre o Batismo, 18 — Tertuliano
- Concílio de Trento, sessão VII, cânones sobre o Batismo, cân. 13 (DH 1626)