Os Sacramentos· Trilha I de IV
Os sete sacramentos
O que são os sacramentos, por que são sete e como Cristo age por meio deles em cada etapa da vida cristã.
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Um copo de água, um pouco de óleo, pão e vinho, as mãos de um bispo, o “sim” de dois noivos. Coisas simples, quase banais. E, no entanto, a Igreja ensina que, por meio delas, Deus age de verdade: perdoa, cura, alimenta e consagra. São os sacramentos, e é por eles que a vida de Cristo chega até nós, hoje.
Entender o que são os sacramentos não é um detalhe para especialistas. É entender como a fé católica funciona no dia a dia: um Deus que não fica distante, mas que escolheu se fazer próximo por meio de sinais que podemos ver, tocar e receber.
O que a Igreja ensina
O Catecismo resume tudo numa frase:
Os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, pelos quais nos é dispensada a vida divina.
— CIC 1131
Cada palavra dessa definição importa.
Sinais
Um sacramento é um sinal: algo visível que aponta para uma realidade invisível. A água do Batismo lava; o pão alimenta; o óleo fortalece e cura. Deus não escolheu esses elementos por acaso: o sinal ajuda a entender o que acontece por dentro.
Eficazes
Aqui está a grande diferença entre um sacramento e um símbolo comum. Uma bandeira lembra a pátria, mas não muda ninguém. Os sacramentos, ao contrário, realizam aquilo que significam: o Batismo não apenas lembra a purificação, ele purifica. Nas palavras do Catecismo, eles “conferem a graça que significam” (CIC 1127).
Isso acontece porque, em cada sacramento, quem age é o próprio Cristo. É ele que batiza, é ele que perdoa, é ele que se dá na Eucaristia (CIC 1127). Por isso a Igreja diz que os sacramentos agem ex opere operato, “pelo próprio fato de a ação ser executada”: a graça não depende da santidade do padre que celebra, mas do poder de Deus (CIC 1128).
Da graça
O que os sacramentos comunicam é a graça: a própria vida de Deus em nós. Não é um “prêmio” por bom comportamento, mas um dom que nos une a Cristo e nos transforma por dentro.
Instituídos por Cristo e confiados à Igreja
Os sacramentos não são invenção da Igreja. A Igreja professa que “os sacramentos da nova Lei ... foram todos instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo” (CIC 1114). À Igreja cabe guardá-los, celebrá-los e transmiti-los fielmente.
Os sete sacramentos e a vida cristã
A Igreja reconhece sete sacramentos, e o Catecismo mostra como eles acompanham toda a nossa vida:
Os sacramentos da nova Lei foram instituídos por Cristo e são em número de sete, a saber: o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio. Os sete sacramentos tocam todas as etapas e momentos importantes da vida do cristão.
— CIC 1210
Assim como a vida natural tem nascimento, crescimento, alimento, cura e missão, a vida espiritual também tem. Por isso o Catecismo os organiza em três grupos (CIC 1211).
Sacramentos da iniciação cristã
- Batismo: o novo nascimento. Apaga o pecado original e todos os pecados, faz de nós filhos de Deus e membros da Igreja.
- Confirmação (ou Crisma): fortalece o batizado com o dom do Espírito Santo, para viver e testemunhar a fé.
- Eucaristia: o alimento. O próprio Cristo, realmente presente, que se dá a nós. O Catecismo a chama de “sacramento dos sacramentos”, porque todos os outros estão ordenados para ela (CIC 1211).
Sacramentos de cura
- Penitência (ou Confissão): o perdão dos pecados cometidos depois do Batismo e a reconciliação com Deus e com a Igreja.
- Unção dos Enfermos: a força de Cristo para quem enfrenta a doença grave ou a velhice.
Sacramentos a serviço da comunhão
- Ordem: consagra diáconos, padres e bispos para servir o povo de Deus em nome de Cristo.
- Matrimônio: une um homem e uma mulher numa aliança para toda a vida, sinal do amor de Cristo pela Igreja.
Na Sagrada Escritura
A palavra “sacramento” vem do latim sacramentum, com que os antigos tradutores latinos verteram o grego mystérion, “mistério”. Em Ef 5,32, por exemplo, São Paulo fala do “grande mistério” da união entre homem e mulher, que aponta para Cristo e a Igreja.
Mais importante que a palavra, porém, é a realidade. Cada um dos sete sacramentos tem raiz nos gestos e nas palavras de Jesus e dos Apóstolos:
- Batismo: Jesus envia os discípulos a batizar todas as nações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,19) e diz que é preciso nascer da água e do Espírito (Jo 3,5).
- Confirmação: os Apóstolos impõem as mãos sobre os que já tinham sido batizados, e eles recebem o Espírito Santo (At 8,14-17; At 19,5-6).
- Eucaristia: na Última Ceia, Jesus toma o pão e o vinho e diz “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue”, e manda fazer o mesmo em sua memória (Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26).
- Penitência: o Ressuscitado sopra sobre os Apóstolos e lhes dá o poder de perdoar e de reter os pecados (Jo 20,22-23).
- Unção dos Enfermos: São Tiago orienta a chamar os presbíteros para orar sobre o doente e ungi-lo com óleo em nome do Senhor (Tg 5,14-15; ver também Mc 6,13).
- Ordem: os Apóstolos impõem as mãos para confiar o ministério a outros (At 6,6; 2Tm 1,6).
- Matrimônio: Jesus reafirma que o homem e a mulher se tornam uma só carne e que o homem não deve separar o que Deus uniu (Mt 19,4-6).
Na Tradição
Desde os primeiros séculos, os cristãos entenderam que nesses ritos era Deus quem agia. Santo Agostinho, no início do século V, explicava o Batismo com uma fórmula que ficou célebre: “Junta-se a palavra ao elemento, e faz-se o sacramento” (Santo Agostinho, Tratados sobre o Evangelho de João, 80,3). A água sozinha é só água; com a palavra de Cristo, torna-se sacramento.
Com o tempo, a Igreja foi explicitando o que sempre viveu. A lista dos sete sacramentos aparece de forma organizada no século XII e é afirmada pelo II Concílio de Lião (1274) e pelo Concílio de Florença (1439). Diante da Reforma Protestante, o Concílio de Trento (1547) ensinou solenemente que os sacramentos são sete, nem mais, nem menos, e que todos foram instituídos por Cristo (Concílio de Trento, sessão VII, cân. 1; DH 1601).
Um dado chama a atenção: as Igrejas ortodoxas, separadas de Roma desde o século XI, também reconhecem sete sacramentos (que chamam de “mistérios”). Esse acordo entre o Oriente e o Ocidente, depois de séculos de separação, mostra que a fé nos sete sacramentos não é uma invenção tardia: ela vem da Igreja indivisa dos primeiros séculos.
Dúvidas comuns
Se Deus age no sacramento, a minha disposição não importa?
Importa, e muito. O sacramento é sempre válido quando celebrado como a Igreja pede, mas os seus frutos dependem de como o recebemos (CIC 1128). Os sacramentos “dão fruto naqueles que os recebem com as disposições requeridas” (CIC 1131). Receber a Comunhão distraído ou sem arrependimento dos pecados graves não é o mesmo que recebê-la com fé e amor.
Deus só pode salvar por meio dos sacramentos?
A Igreja ensina que, para quem conhece o Evangelho, os sacramentos são o caminho que o próprio Cristo deixou, e por isso são necessários para a salvação (CIC 1129). Mas ela também reconhece que Deus é maior que os meios que ele mesmo criou: “Deus ligou a salvação ao sacramento do Batismo; mas Ele próprio não está prisioneiro dos seus sacramentos” (CIC 1257).
Por que sete, e não só dois?
Muitas comunidades protestantes reconhecem apenas o Batismo e a Ceia. Mas, como vimos, a Escritura mostra os Apóstolos ungindo doentes, perdoando pecados, impondo as mãos para comunicar o Espírito Santo e para consagrar ministros. A Igreja, desde os primeiros séculos e tanto no Oriente quanto no Ocidente, sempre viveu esses sete sinais como ações do próprio Cristo.
Em resumo
- Os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja (CIC 1131).
- Eles realizam o que significam, porque em cada um deles quem age é o próprio Cristo.
- São sete: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio.
- Acompanham toda a vida cristã: iniciação, cura e serviço da comunhão.
- A graça é sempre oferecida, mas os frutos dependem da fé e da disposição de quem recebe.
Referências
- Catecismo da Igreja Católica, 1113-1134 (os sacramentos de Cristo e da Igreja)
- Catecismo da Igreja Católica, 1210-1212 (os sete sacramentos)
- Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 224-232
- Concílio de Trento, sessão VII, Decreto sobre os sacramentos (1547), cânones 1-13 (DH 1600-1613)
- Tratados sobre o Evangelho de João, 80,3 — Santo Agostinho